Conta-se que numa afastada cidade do interior de terras muitos distantes vivia uma pequena família que inspirava a todos muito amor e harmonia.
Numa casinha aconchegante, viviam Margarida e João, pais da pequena Ana, D. Clau e Seu José, avós paternos de Ana.
Aparentemente tudo parecia bem, mas o que não era possível perceber era o grande conflito que existia entre Margarida e D. Clau.
Margarida morria de ciúmes de sua sogra. Não aguentava a participação dela na administração da casa e na educação de Ana.
D. Clau era uma boa senhora, mas acreditava que Margarida não dava certas atenções a seu filho e neta, as quais julgava serem importantes.
Então, acabava sempre se intrometendo e interferindo em alguma decisão do dia-a-dia e Margarida já não aguentava mais isso.
Ficava com raiva quando sua sogra fazia um bolo mais gostoso que o seu, quando passava as roupas de seu marido melhor do que ela, quando arrumava as coisas trocando tudo do lugar onde tinha colocado.
Saía de si quando sua sogra pedia as opiniões de todos sobre seus dotes culinários e seus cuidados com a casa, fazendo comparações e procurando o primeiro lugar na avaliação de todos.
Com o tempo, isso foi deixando de ser uma simples irritação e começou a virar raiva e ódio. Margarida não aguentava mais tantas interferências. Nunca conseguia fazer as coisas do modo que gostaria. Sua sogra era insuportável e ela precisava definitivamente livrar-se dela.
Então, decidiu adentrar as florestas mais escuras da cidade e pedir a ajuda da bruxa mais velha da região. Ela sabia que só ela poderia ajudá-la a encontrar um meio de livrar-se de sogra. Sabia que ela era capaz de resolver qualquer problema.
O caminho era longo, cheio de pedras, espinhos, barulhos estranhos, difícil de chegar, mas depois de muitas horas, ela avistou ao longe uma casinha onde era possível avistar uma luz acesa pela janela.
Embora o caminho tivesse sido difícil, ao chegar mais próximo da casa, Margarida se sentiu aliviada. Era uma casinha bem cuidada, cheia de flores, onde se podia sentir o aroma natural da mata.
Ela estranhou e pensou: “Será que é aqui? Não imaginava que a casa de uma bruxa seria tão linda e delicada! ”. Um tanto intrigada, decidiu entrar.
Ao entrar, viu tudo arrumadinho, um cheirinho do doce que cozinhava no forno a lenha e uma senhorinha sentada numa cadeira de balanço fazendo um bordado.
Um pouco sem graça, pediu licença e disse: “Estou à procura da bruxa mais velha da cidade. A senhora sabe me dizer onde posso encontrá-la? ”
A senhora a olhou tranquilamente, convidou-a a sentar e disse: “Sim minha filha. Em que posso ajudar? ”
Margarida estranhou a docilidade daquela senhora. Não esperava tal tratamento, mas não se ateve a esses detalhes e foi logo falando: “ Sra., eu não suporto mais conviver com minha sogra! Eu preciso de algo que me ajude a livrar-me dela!
Não quero nada que a faça sofrer e nem que seja do dia para noite. Mas algo que seja eficaz. Não aguento mais! Ela critica tudo o que eu faço, tudo que ela faz é melhor do que as que eu faço. Preciso de sua ajuda!
A senhora ouviu atentamente e respondeu: “Acalme-se minha filha. Eu posso ajudar. Porém, com uma condição. Você deverá seguir todas as minhas orientações e oferecer a sua sogra uma dose da poção mágica que lhe entregarei em cada refeição que deverá ser feita por você. E foi até a sua penteadeira, pegou um vidrinho com conta gotas e explicou:
– Durante 30 dias você acordará a sua sogra com muita gentileza e lhe oferecerá um café da manhã com uma gota dessa poção;
– Fará todos os dias uma comida que ela goste para o almoço e pingará uma gota da poção no preparo da comida;
– Durante as tardes, ofereça-lhe um pedaço de bolo, pergunte se ela gostou, faça-lhe algum elogio e independentemente do que ouvir, sorria;
– No jantar, faça a melhor sopa que souber, pingue uma gota da poção e sente-se a mesa para conversar com ela, garantindo que ela coma tudo.
Margarida, contrariada, achou que seria muito difícil fazer com que sua sogra comece sua comida. Mas, se isso fosse a garantia de livrar-se dela em 30 dias, seguiria todas as orientações para conseguir o que queria.
E assim voltou para a sua casa determinada a iniciar o seu plano a partir do dia seguinte.
Acordou cedo, fez um pãozinho de forno, preparou um café novo e pingou uma gota da poção.
Colocou a mesa, a enfeitou com flores e quando sua sogra levantou ela disse:
– Bom dia D. Clau! Venha tomar o cafezinho fresquinho que acabei de fazer! Já deixei uma xícara para senhora e outra pra mim para tomarmos café juntas.
D. Clau olhou com estranhamento e meio a contragosto sentou à mesa e tomou o café sem entender e sem proferir uma única palavra. A nora nunca a tinha tratado daquela maneira tão gentil. Ficou desconfiada, mas diante de tantas discussões, até que não era tão ruim ser recebida dessa maneira, mesmo que não fosse tão verdadeiro. E assim, tomaram o café pacificamente e Margarida conseguiu faze-la tomar a poção.
Animada com seu plano, já começou a pensar no almoço e no prato que sua sogra mais gostava. Preparou uma carne assada, muito bem temperada e servida com batatas.
Quando tudo estava pronto, chamou sua sogra para saborear o almoço, deixando claro que tinha feito seu prato predileto, o qual ela não poderia recusar!
D. Clau estranhou mais uma vez, olhou tudo muito bonito, organizado e a comida muito cheirosa. Não pode resistir e comeu toda comida. Não fez nenhum elogio, mas a nora a tinha surpreendido.
As duas voltaram a seus afazeres e, ao entardecer, já se podia sentir o delicioso cheirinho do bolo de fubá que acabava de sair do forno.
Margarida não perdeu tempo. Fez um pratinho de bolo e uma xícara de café com poção e foi entregar para a sua sogra que costurava na varanda.
A sogra estava profundamente pensativa sobre as atitudes de Margarida. Mas, ao invés de ficar irritada com tantas atenções, preferiu ver até onde iria essa história.
No jantar o ritual foi o mesmo. Margarida tomou conta de tudo. Organizou a mesa e serviu uma sopa de legumes. Procurou servir a sogra pessoalmente, já que havia pingado uma gota da poção no prato antecipadamente.
O dia acabou e Margarida foi dormir com a certeza de que seu plano daria certo.
Os dias foram se passando e ela tinha que manter o ritual diário, procurando não demonstrar suas reais intenções.
Com isso, passou a conversar mais nas refeições com sua sogra, pedir suas opiniões em relação aos afazeres domésticos e até com relação a comida.
D. Clau começou a ficar feliz de saber que sua opinião passava a ser importante para Margarida e começou a fazer o mesmo com a Nora, perguntando sua opinião, trocando experiências. Assim, as conversas rendiam cada vez mais e o plano de Margarida caminhava de vento em polpa.
O tempo foi passando, já não era mais insuportável a convivência entre elas, já conseguiam conversar, ouvir e aceitar a opinião da outra.
Margarida se habituou a tratar a sogra com mais atenção e carinho e D. Clau começou a perceber que sua nora também tinha muitas habilidades preciosas.
Mas os 30 dias estavam quase completos e logo seu plano chegaria ao fim e poderia viver feliz sem a sogra por perto.
No entanto, ao pensar nos dias vindouros, Margarida começou a sentir uma certa tristeza. A ideia já não lhe agradava tanto e ela começou a se arrepender do que tinha feito. Desesperada, foi correndo a casa da bruxa que lhe deu a poção.
Ao chegar lá, encontrou a senhorinha no jardim, cuidando das plantas.
Foi logo falando:
– Senhora, preciso de sua ajuda novamente! Preciso desfazer o efeito da poção. Os dias se passaram, fiz tudo que você orientou para alcançar o que eu queria, mas com o tempo, fui percebendo que minha sogra é uma pessoa maravilhosa e passei a gostar tanto de sua companhia que não consigo suportar a ideia de fazer algum mal a ela. Há algo que se possa fazer para reverter o efeito da poção?
E a velha bruxa responde:
– Sim minha filha, temos como anular o efeito da poção.
Margarida sorriu aliviada, mas ainda preocupada, dizendo:
– Mas e todos os dias que fiz minha sogra tomar a poção? Não seriam suficientes para lhe acarretar algum mal?
– E a velha bruxa sorriu delicadamente esclarecendo:
– Não minha filha, a poção que lhe dei não tinha além do que água.
E Margarida sem entender, respondeu:
– Fico feliz de saber que não fiz nenhum mal a minha sogra. Não me perdoaria. Mas se a senhora não colocou nada na poção, como o meu plano poderia ter dado certo? Suas poções não funcionam?
– E a senhora respondeu:
– Minha querida, não existem poções mágicas. A magia da vida se faz com o amor. Quando você me contou sobre sua sogra, percebi que precisavam de uma chance para se conhecerem. Percebi que as duas eram pessoas maravilhosas, mas ainda apegadas a vaidade, ciúmes e inveja. Acreditei que se conseguisse incentivar uma aproximação entre vocês duas através de um plano de mudança de atitudes, poderia oferecer a vocês a oportunidade de resolverem os atritos de um modo diferente, mesmo que no início fosse difícil e forçado. Acreditei que, ao longo dos dias, uma nova relação poderia nascer e não se desfazer. Por isso, fico feliz de saber que minha poção mágica transformou sua vida. Vá e seja feliz minha filha! E se precisar de mais uma poção mágica, lembre-se de pingar uma dose de amor em cada atitude do seu dia. Pequenas doses por dia são capazes de transformar o mundo.

Sejamos felizes!

Karol Peixoto
Karol Peixoto
Paulista, 34 anos é Bacharel em Musicoterapia pela Faculdade Paulista de Artes/SP, Pós-graduada em Arteterapia pela Faculdade de Ciências da Saúde de São Paulo, Reikiana pelo Instituto Luz/SP e está cursando Extensão Universitária em Dependência Química na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Desenvolve trabalhos terapêuticos focados em Saúde Mental e durante sua trajetória atuou em diversas instituições de apoio a: Dependentes Químicos, Pacientes Soropositivos; Grupos de 3ª. Idade; Crianças com deficiências mentais; Crianças com câncer e pacientes com problemas Psiquiátricos . Atualmente realiza atendimentos em clínica particular.

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